quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Don´t say a word!


Não reze por mim. Neste momento, não preciso de sua piedade. Não me venha com seu otimismo barato e pré-fabricado. Não me presenteie um livro de auto-ajuda. Não me peça para sorrir, ainda que amareladamente. Não me diga que tenho que manter a calma e ser paciente. Conselhos e ditos populares já não fazem efeito sobre mim. Não ordene que eu não me mate, afinal no que você contribuiu para melhorar minha vida? Não finja que se importa com meus sentimentos, te mostrarei uma nota de cem e então os conhecerei verdadeiramente. Não tenha preconceito, que diferença eu faço no seu mundo? Não me conte seus êxitos, mas antes suas desgraças me farão ter alguma consideração por você. Não me ame, pois eu não conseguirei mais corresponder. Não me odeie, seria apenas perda de tempo já que eu nunca revidaria uma ofensa. Não prometa lealdade, pois todos se foram antes do combinado. Não se compadeça da minha dor, pois se eu pudesse te desejaria uma mil vezes pior. Não busque minha amizade, a traição é inevitável. Não teime que sou bonita, só eu sei o grau de putrefação no qual me encontro. Não repita que o que vale é ser você mesmo, pois eu o fui até este momento e o que eu ganhei com isto? Não dê atenção às minhas lamúrias, as faria mesmo que a vida fosse cor-de-rosa somente para não perder o hábito. Não coma pouco sabendo que eu necessito comer muito. Não me convide para seu casamento, eu não me esforçaria para não parecer invejosa. Não me venha com histórias de amor, eu não as conheço. Não me compare a ninguém, ainda que inferior essa pessoa não teria metade da minha pertubação mental. Não critique meu modo de ser, apesar de tentar inúmeras vezes, a mudança não aconteceu. Não se limite a enumerar meus feitos, eu os trocaria num piscar de olhos por algo mais real. Não dance essa música comigo se você não tem intenção de me levar para casa no final da noite. Não queime os livros, só eles me dão algum alento. Não sintetize minha angústia em uma só palavra, carência está longe de ser meu único problema. Não pense que faço tempestade num copo d'àgua, você não conhece o passado que escondo a sete chaves. Não me obrigue a respeitar o sangue, eu não o escolhi. Não siga meus passos, eu me afundaria em um lamaçal apenas para te ver cair. Não sou tão frágil que não possa te arruinar e não sou tão forte que não chore às vezes escondida. E principalmente, não creia que compreendeu esse desabafo, pois ele realmente não significa nada.
Simone Batista

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Meu corpo... seu livro...


Tentei ser diferente, me mostrar mais confiante, criativa, moderna...
O preço que paguei foi caro... mas já esperado, afinal eu sabia o risco que estava correndo.
Qual o preço de um beijo após dois meses de expectativa?
Qual o valor de uma palavra mediante dois meses de ilusão?
Prometi que não ia quebrar, mas como vê, não consegui cumprir.
E agora José? Não é essa a pergunta que não quer calar?
Gostei de você desde a primeira vez que te vi. E ainda gosto.
Você não me conhecia e mesmo estando ao meu lado por diversas vezes, não conheceu e nem vai conhecer.
Cheguei a conclusão de que odeio as pessoas muito educadas. Prefiro as que dizem na sua cara: Não gosto de você. Para mostrar minha indignação, um "como assim" não bastaria. Lutei contra minhas próprias barreiras para que você também as pudesse quebrar. E quebrou... o encanto, a ilusão, eu.
Qual o preço do meu corpo? Um livro? Meu corpo nem importa mais, ele já era teu. Mas o sorriso que eu te dedicava sinceramente, virou apenas um "tá tudo bem".
Apesar de ser boa moça, porque insistem em me colocar no papel de má? Sentimental demais? Talvez... mas como classificar a frase: Gosto de você, mas não quero te magoar? Quem gosta não magoa, pelo menos não "pensadamente".
Quanto vale um obrigado?
"Portuguesa" sou, mas não de propósito. Gosto de acreditar que posso acreditar nas pessoas. Mas como minha mãe sempre me alertou: "Não fale com estranhos!".

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

A promessa


Era uma manhã chuvosa. A neblina densa encobria todo o céu da pequena vila. Não havia viva alma pelas ruas. As pessoas dormiam tranqüilamente, talvez algumas sonhassem com um dia de sol numa praia paradisíaca, outras, no entanto, olhavam a chuva fina que caía pelas suas janelas com o olhar perdido numa melancolia profunda. Mas nesse momento, alguém sorria feliz.
Na última casa da rua, uma jovem de tranças negras rodopiava de alegria. Seu pai acabara de falecer e o corpo ainda repousava inerte sobre a cama. Seu riso ecoava pelas paredes frias da sala. Não haveria mais gritos, surras ou abusos. Passados longos vinte e sete anos, finalmente chegara o tão esperado dia e a única coisa que conseguia fazer era rir, rir muito, até não poder mais. Neste ínterim, ouve-se um choro. Ela voltou-se na direção do barulho e viu seu filho de apenas três anos parado no topo da escada com o olhar estarrecido como de quem não acredita no que acaba de ver. Sem o mínimo de compaixão ela saiu pela porta para não mais voltar. A criança entendeu que não veria mais a sua mãe. Desceu as escadas e correu para a rua a fim de encontrá-la. Por ainda não ter uma percepção aguçada, não notou que um carro em alta velocidade vinha em sua direção. Em poucos instantes seu corpinho franzino jazia morto no chão. A mãe viu toda a cena ao longe, mas por haver prometido a si mesma que nunca mais se prenderia a algo ou a alguém, continuou a caminhar sem se importar com seu único filho ali atirado ao chão como um pobre indigente...

Simone Batista

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Teus olhos


Quando nossos olhos se encontram
perco todas as minhas conviccções,
meus medos e minhas preocupações
dos meus poros emanam.
Esqueço tudo o que já vivi
e no mesmo erro persisto,
simplesmente não resisto
e quando dou por mim, já cedi.
Te querer é uma loucura,
pois sei que nada tens a me oferecer,
mas não consigo me conter
e sempre saio a sua procura.
Finjo que isso não me magoa,
banco a forte e desencanada
aquela que em troca não quer nada
e que é só um "casinho" à toa.
Tomada pela emoção
e sem me preocupar com possíveis rumores
me entrego sem pudores
ignorando por completo a razão.
E nesse jogo de gato e rato
enquanto eu não meço consequências,
você me vem com reticências.
Será que existe alguém sensato?

Simone Batista

terça-feira, 8 de julho de 2008

Impulsos


Não consigo mais viver assim...
Ser sua amiga, pegar na sua mão, olhar nos seus olhos,
mas não tê-lo dentro de mim...

Lembrar- me todos os dias de seu beijo doce,
sem esperanças de que você também pense em mim.
Violentar minha própria carne
e de olhos fechados, sentir que é você.

Enquanto você me despia com os olhos turvados
pela névoa da embriaguez,
o pudor me atingia severamente
e eu me afastava... me aproximava...
querendo...pedindo...
tentando te prender em mim,
para que não quisesse voltar para a outra.

Dei o máximo de mim para que no final da noite
você lembrasse ao menos meu nome.
Mas você me deu apenas um sorriso
e o levei em meu pensamento e não pude mais conciliar o sono.

Simone Batista

domingo, 22 de junho de 2008

Amo-te tanto


Amo-te tanto que às vezes
esqueço de mim,
esqueço que a minha vida
não depende só de você
e que eu sobreviverei
se um dia perderte.
Amo-te além da paixão,
além da loucura,
além do amor,
além de tudo o que há.
Amo-te tanto que não sei
mais realmente o que é amor,
amo-te tanto que não sei
mais o que sinto,
amo-te tanto que não sei
mais o que sou.
Amo-te tanto que nem
mesmo o amor saberia explicar,
amo-te tanto que nem
mesmo Deus sabe o porquê,
amo-te tanto que nem
eu sei o motivo pelo qual
amo-te tanto.

Simone Batista

sábado, 14 de junho de 2008

Soneto Branco


O trem que me levaria ao teu encontro
Partiu cinco minutos antes do combinado
E esse pequeno espaço de tempo
Fez de mim um pobre ser amargurado.

Meus olhos se perderam no horizonte
E as lágrimas quentes teimavam em cair.
Olhei o veículo afastar-se lentamente
E o amor da minha vida para sempre partir.

Ali, parado naquela estação,
Sem rumo, sem direção,
Comecei a divagar:

Se você nunca mais voltasse
Por mais que eu te amasse
Teria eu forças para esperar?

Simone Batista

sábado, 26 de abril de 2008

Desencontros



Ele:

“E ela se foi. Chorava copiosamente, mas não hesitou um minuto sequer. Seus passos eram firmes e aos poucos ela foi sumindo na linha do horizonte. Olhei sua figura, talvez pela última vez e não consegui sentir nada. Parecia que não era real. Subi ao meu quarto, deitei em minha cama ainda amarrotada da tórrida noite de amor e esperei. Esperei que ela retornasse. Entretanto, ela não o fez. E eu não me levantei mais...”.

Ela:

“Achei que ele gritaria meu nome e exigiria que eu voltasse para seus braços e para a sua vida, entretanto, quanto mais eu caminhava, mas a certeza de que ele não faria isso me afligia a alma. Ao longe, parei e olhei em direção a casa. Ele não estava mais na varanda, sinal de que não se importava com o meu destino. Caminhei sem rumo, pois ele era minha direção. Nunca mais parei...”.

Simone Batista

quinta-feira, 24 de abril de 2008

A preterida




Desde pequena os melhores brinquedos eram dados à sua irmã. Na adolescência, os rapazes mais bonitos sempre se interessavam pela sua melhor amiga. Quando começou a trabalhar, os cargos que ofereciam melhores condições nunca lhe eram destinados, apesar de seu currículo escolar invejável. Agora, no auge de seus 30 anos, é a única da turma e da família ainda solteira. Nunca teve ao menos um namorado para apresentar, nem uma profissão da qual tivesse orgulho de comentar. Sua vida era uma sucessão de dias sem graça. Trabalho, casa, igreja...
No final de semana seguinte iria haver uma grande festa em sua cidade. Todos estavam alvoroçados, menos ela. Afinal, ninguém nunca a escolhia para dançar mesmo. Entretanto, chegado o dia, algo a impulsionou. Vestiu sua melhor roupa, penteou-se e saiu apressada. Sentia um aperto no peito e quanto mais caminhava mais a sensação ruim a perseguia. Finalmente, quando chegou, pôde avistar a multidão que se formava em volta da mesa farta. A música agitada estava no último volume e todos conversavam, sorriam e alguns pares dançavam.
De rente, um carro desgovernando adentrou a festa e atingiu a moça, pressionando-a contra o muro. Ela sorriu, suspirou e abandonou a vida certa de que pela primeira vez, ela fora escolhida dentre muitos.


Simone Batista

Devaneios

Entrei apressado no metrô. Era a segunda vez na mesma semana que chegaria atrasado na empresa. Olhei em volta, todos os bancos estavam ocupados. Envolvi a barra fria de aço entre as mãos e encostei-me na porta que se fechara atrás de mim. Comecei a prestar atenção nas pessoas ao meu redor. Alguns liam o jornal da manhã e outros tiravam a soneca dos justos, porém uma pessoa em específico me chamou a atenção. Sentada no fundo do vagão, mas exatamente no último assento, estava uma senhora de meia-idade. Seus cabelos grisalhos estavam envoltos em um lenço azul com pequenos furos e a roupa já bem gasta e encardida mostrava que há dias não era trocada. Por coincidência, ela olhou-me e viu que eu a encarava. Abaixou os olhos timidamente e apertou a sacola de plástico que carregava de encontro ao peito. Senti uma profunda lástima por aquele ser encolhido. Resolvi me aproximar. Vagarosamente, parei à sua frente e sorrindo a cumprimentei. Desconfiada, ela deu um meio sorriso e voltou sua atenção para o outro lado. Percebi que minha presença a incomodava, mas ainda assim, não conseguia desprender meu olhar daquela figura patética e ao mesmo tempo doce. “Deve ter a idade de minha mãe!” pensei. Sim, aquela senhora poderia ser minha mãe... Poderia, mas não o era. Será que ela tinha filhos? Comecei a divagar sobre sua possível rotina. Em minha mente fértil imaginei os rostos de seus filhos; a sua casa branca cheia de bordados, tricôs e crochês; seu marido calvo e barrigudo sentado no sofá em frente à televisão; sua comidinha invariável...Meus devaneios foram interrompidos por sua mão em meu ombro. Olhei no fundo de seus olhos e esperei que ela me dissesse algo, o que prontamente o fez: ­- Obrigada, meu filho, por sua atenção! Ouvi ao longe o chamado para desembarque dos passageiros. Ela saiu e eu não pude me conter. Lágrimas quentes me vieram aos olhos. A solidão humana é a pior das dores...
Simone Batista

sábado, 23 de fevereiro de 2008

A imagem


Sua imagem refletia distorcida. Nada combinava, nada se encaixava ou mesmo soava bonito. Nenhuma maquiagem era capaz de realçar os olhos pequenos demais. A boca era grande, chamativa, exceto pelas inúmeras vezes que fazia bico e parecia uma criança birrenta; o nariz mais parecia uma batata recheada com enormes cravos, que convém lembrar, era seu passatempo favorito espremê-los; o cabelo, nem liso e nem ondulado, simplesmente armava e ficava com aparência de não-penteado. O corpo era o que mais a fazia sofrer. Totalmente disforme. A barriga pesava sobre o cós da calça e aparentava uma gravidez no quarto mês; a coluna torta lhe conferia semelhança ao “Corcunda de Notre Dame”; quadris largos; bunda achatada coberta de celulite; seios fartos e sob o efeito da gravidade; unhas roídas.
“Com uma imagem destas, quem poderia olhar para mim?”. Realmente deveria repelir a todos os homens pelos quais sentia algo, chegava até a ser engraçado, mas todos eles nunca lhe deram a mínima. É claro, sempre existiam alguns poucos, loucos o suficiente, que a olhavam com outros olhos, mas nenhum era digno de sua atenção, uma vez que em nada se pareciam com a imagem do príncipe encantado que ela formara em sua mente. Todos os dias passava horas em frente ao espelho de seu quarto, odiando cada parte de seu corpo e de seu rosto e desejando ser diferente. Imaginava-se com os olhos de uma e cabelos de outra. Encenava, oras cenas de romance, oras cenas de total desapego.
Enfim, sua preces foram ouvidas. Em um dia no qual a chuva caía torrencialmente, um raio atingiu o espelho que tantas horas lhe fez companhia e este estilhaçou em vários pedaços e rasgou seu rosto. Agora já não pode mirar-se, seus olhos tiveram danos irreversíveis. Melhor assim, nunca mais poderia reclamar de sua aparência, agora ainda mais horrenda.
E é como dizem...Se você desejar uma coisa com muita vontade, acaba conseguindo...

Simone Batista

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

"Yesterday I got so old
I felt like I could die
Yesterday I got so old
it made me want to cry."

The Cure - In between days