quinta-feira, 24 de abril de 2008

Devaneios

Entrei apressado no metrô. Era a segunda vez na mesma semana que chegaria atrasado na empresa. Olhei em volta, todos os bancos estavam ocupados. Envolvi a barra fria de aço entre as mãos e encostei-me na porta que se fechara atrás de mim. Comecei a prestar atenção nas pessoas ao meu redor. Alguns liam o jornal da manhã e outros tiravam a soneca dos justos, porém uma pessoa em específico me chamou a atenção. Sentada no fundo do vagão, mas exatamente no último assento, estava uma senhora de meia-idade. Seus cabelos grisalhos estavam envoltos em um lenço azul com pequenos furos e a roupa já bem gasta e encardida mostrava que há dias não era trocada. Por coincidência, ela olhou-me e viu que eu a encarava. Abaixou os olhos timidamente e apertou a sacola de plástico que carregava de encontro ao peito. Senti uma profunda lástima por aquele ser encolhido. Resolvi me aproximar. Vagarosamente, parei à sua frente e sorrindo a cumprimentei. Desconfiada, ela deu um meio sorriso e voltou sua atenção para o outro lado. Percebi que minha presença a incomodava, mas ainda assim, não conseguia desprender meu olhar daquela figura patética e ao mesmo tempo doce. “Deve ter a idade de minha mãe!” pensei. Sim, aquela senhora poderia ser minha mãe... Poderia, mas não o era. Será que ela tinha filhos? Comecei a divagar sobre sua possível rotina. Em minha mente fértil imaginei os rostos de seus filhos; a sua casa branca cheia de bordados, tricôs e crochês; seu marido calvo e barrigudo sentado no sofá em frente à televisão; sua comidinha invariável...Meus devaneios foram interrompidos por sua mão em meu ombro. Olhei no fundo de seus olhos e esperei que ela me dissesse algo, o que prontamente o fez: ­- Obrigada, meu filho, por sua atenção! Ouvi ao longe o chamado para desembarque dos passageiros. Ela saiu e eu não pude me conter. Lágrimas quentes me vieram aos olhos. A solidão humana é a pior das dores...
Simone Batista

Um comentário:

Carolina disse...

Precioso y dulce, como tú.