O pai o abraçava carinhosamente. Fazia gracinhas, conversava com ele, porém o menino não abria a boca. Com as mãozinhas escondidas na blusa de linho surrada azul-marinho com listra vermelha, ele me olhava tristonho. Não sei o motivo de sua chateação ou se era apenas frio, mas senti meus olhos se encheram de lágrimas diante daquelça cena. Todos ao meu redor, inclusive eu, estávamos bem agasalhados para o frio de 4°C que fazia naquela manhã. Percebia-se pela gola de sua blusa que ele vestia por baixo apenas uma camiseta. Sua calça de moletom cinza já havia passado muitos invernos com ele, pois mostrava "quatro dedos" da perna franzina do garoto antes de avistarmos as meias vermelhas e o tênis marrom. Quando o onibus esvaziou e ele foi sentar num banco sozinho, o pai pediu por duas vezes que ele se segurasse no encosto do banco da frente, porém em nenhum momento ele "desembrulhou" as mãozinhas.
Simone Batista
Simone Batista
