sábado, 23 de fevereiro de 2008

A imagem


Sua imagem refletia distorcida. Nada combinava, nada se encaixava ou mesmo soava bonito. Nenhuma maquiagem era capaz de realçar os olhos pequenos demais. A boca era grande, chamativa, exceto pelas inúmeras vezes que fazia bico e parecia uma criança birrenta; o nariz mais parecia uma batata recheada com enormes cravos, que convém lembrar, era seu passatempo favorito espremê-los; o cabelo, nem liso e nem ondulado, simplesmente armava e ficava com aparência de não-penteado. O corpo era o que mais a fazia sofrer. Totalmente disforme. A barriga pesava sobre o cós da calça e aparentava uma gravidez no quarto mês; a coluna torta lhe conferia semelhança ao “Corcunda de Notre Dame”; quadris largos; bunda achatada coberta de celulite; seios fartos e sob o efeito da gravidade; unhas roídas.
“Com uma imagem destas, quem poderia olhar para mim?”. Realmente deveria repelir a todos os homens pelos quais sentia algo, chegava até a ser engraçado, mas todos eles nunca lhe deram a mínima. É claro, sempre existiam alguns poucos, loucos o suficiente, que a olhavam com outros olhos, mas nenhum era digno de sua atenção, uma vez que em nada se pareciam com a imagem do príncipe encantado que ela formara em sua mente. Todos os dias passava horas em frente ao espelho de seu quarto, odiando cada parte de seu corpo e de seu rosto e desejando ser diferente. Imaginava-se com os olhos de uma e cabelos de outra. Encenava, oras cenas de romance, oras cenas de total desapego.
Enfim, sua preces foram ouvidas. Em um dia no qual a chuva caía torrencialmente, um raio atingiu o espelho que tantas horas lhe fez companhia e este estilhaçou em vários pedaços e rasgou seu rosto. Agora já não pode mirar-se, seus olhos tiveram danos irreversíveis. Melhor assim, nunca mais poderia reclamar de sua aparência, agora ainda mais horrenda.
E é como dizem...Se você desejar uma coisa com muita vontade, acaba conseguindo...

Simone Batista