sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Entre galhos




Saíra amarela

Mira teu tangará,

Repara como ele se move

E comove com seu bailar.


Olha lá, se não é um ninho perfeito

Leito de duas almas

Calmas no jeito

E feitas para perdurar.


Cante alto e forte

A sorte enfim veio em tua direção,

São poucos que a recebem pajarita,

Sinta, isso não é outra ilusão.


Em teus olhos muitas cores,

Odores para te lembrar

Mar, cidade, campo

Tanto que temos para contar.


Mesmo com sua aparência frágil

É ágil e tem fome de viver.

Ver esse pássaro de rara beleza

Com certeza é um alento para viver.


Mas é como muitos dizem...

Sem compania, uma única andorinha não faz verão.

Então o destino reuniu já,

Tangará e saíra numa perfeita união.
Simone Batista

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

1° pessoa do plural


Te olho e não acredito.
Te sinto e ainda não creio.
Te tenho, entretanto receio.
Te gosto e a isso me permito.

Me ama mas ainda não disse.
Me tens porque merece.
Me necessita e às vezes esquece.
Me ganha com tua meninice.

Nos conhecemos sem querer.
Nos apaixonamos constantemente.
Nos encontramos nada frequentemente.
Nos ganhamos para em nós mesmos nos perder.

Simone Batista

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Fragmentos

- Eu amo você.

- Você não disse com muita convicção.

- Eu amo você!

- E você acha que eu vou acreditar nisso?

- Eu já disse, eu realmente amo você!

- Como vou saber se essas palavras são verdadeiras?

- Olha, se você acha que eu estou mentindo é problema seu.

- Nossa! Que jeito de falar! É desse modo que você diz me amar?

- Amo você! Amo você! Amo você!!! Está bem assim?

- Não precisa gritar! Assim você só prova o que eu já sei. Você não está nem aí para mim...

- Ah, meu Deus! Por favor não comece a choramingar.

- Você não se importa com os meus sentimentos.

- Que tal se a gente for dormir e discutir isso amanhã?

- Não! Tem que ser agora!

- Pois bem, fale!

- Falar o quê? Você é quem tem que me dizer algo.

- Eu?

- Viu só? Você não se esforça para mostrar que ainda se importa comigo.

- Mas eu acabei de dizer que te amo.

- Palavras vazias.

- Ok. Então o que você quer de mim?

- Oras! Você não entende nada mesmo.

- Se você me desse uma dica do que se passa nessa cabeça, talvez eu entendesse.

- Estamos juntos há 5 anos e você não me conhece.

- Claro que conheço! Você me fez decorar o nome de todos os seus cantores favoritos, do seu prato predileto, todas as datas que você considera importante e por aí vai...

- Do jeito que você fala parece que eu te obriguei a isso.

- Amor, essa discussão nós já tivemos um milhão de vezes. Você não precisa levantar cedo amanhã?

- Não mude de assunto!!!

- Você conseguiu me tirar do sério! Não quer dormir? Ótimo! Estou saindo.

- Onde você vai?

- Dormir em algum lugar tranquilo.

- Ah, eu sabia! Você só queria uma desculpa para me trair. Bem que minha mãe me avisou que você não prestava...

- Eu não vou aguentar outra ceninha.

- É mesmo? E vai fazer o quê?

- Não me provoque. Meu dia foi péssimo e eu não estou com paciência hoje.

- Como se o meu dia tivesse sido uma maravilha também! Acabei de descobrir que a pessoa pela qual me dediquei todos esses anos não me ama mais.

- Eu amo você... mas receio estar com uma vontade enorme de te matar neste exato momento.

- Como é? Me ama, mas quer me matar? Que raios de amor é esse?

- Olha que não é má idéia...

- Você está me assustando!

- Creio que já tenho a prova de amor perfeita para lhe dar.

- Não estou gostando nada dessa estória e muito menos dessa expressão no seu rosto. Ei! Para que você precisa dessa arma? Abaixe isso agora mesmo.

- Vou te livrar da pior coisa que lhe aconteceu na vida.

- Não faça isso, pelo amor de Deus! Pense em nós e em tudo o que vivemos!

- Sua mãe estava certa, eu não presto.

- Não é verdade... Calma! Vamos conversar...

- Mas já estamos fazendo isso, benzinho.

- Não faça essa besteira. Não se mate. Prometo que não vamos mais brigar.

- Me matar? Por que você achou que eu faria isso?

- É que... você disse... disse que ia se livrar da pior coisa que havia me acontecido... então, eu pensei que...

- Pensou errado. A pior coisa que lhe aconteceu na vida foi ter nascido.

...



- Boa noite.



Simone Batista

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Salvação



"A menina de alma negra se arrastava no lamaçal do vale do esquecimento. Suas feridas expostas sangravam, o prurido a acometia de uma coceira insuportável e a dor a fazia lamuriar-se com frequência. A escuridão e o frio a castigavam e o silêncio, quebrado apenas por seus incansáveis murmúrios e gemidos, a enlouquecia ao ponto de imaginar vozes e sentir-se perseguida por demônios horrendos, criaturas em avançado grau de putrefação e monstros rastejantes. Seu corpo debilitado pela fome e pela sede dificultava sua locomoção e cada vez que ela fraquejava, afundava ainda mais no lodo fétido e viscoso. Há muito já havia perdido a noção do tempo e mesmo que quisesse não teria como precisá-lo, pois naquele lugar não havia distinção entre noite e dia, apenas o vazio, o limbo, o negrume. Suas lágrimas quentes não conseguiam aquecer seu rosto petrificado pelo vento cortante e a chuva fina e constante.
Surgiu então uma luz pequenina ao longe. Pensando em tratar-se de mais uma de suas alucinações, ela não deu nenhuma importância. Entretanto, a luz foi aumentando aos poucos e começava a iluminar timidamente o vale assombrado. Ela afundou-se na lama deixando apenas um par de olhos assustados para fora. Mais atemorizador do que estar sozinha naquele lugar, era a presença de Um ser desconhecido. Era uma figura colorida, resplandecente. Não dava para distinguir ao certo, mas a medida que se aproximava, mas difícil ficava olhar para sua luminosidade. Contornos de grandes asas foram surgindo e o bater delas causava calafrios na menina.
Era uma borboleta. Não qualquer uma. Era a mais linda e complexa que ela lembrava ter visto em vida. Enorme, majestosa. Suas muitas cores moviam-se e misturavam-se, proporcionando a cada instante combinações únicas de tirar o fôlego. Entretanto, quando seus olhos admirados se acostumavam novamente com a beleza, a borboleta começou a derreter. Os fluídos escorriam como se houvessem aceso uma vela sobre a criatura e os pingos incandescentes queimavam a menina, causando-lhe ainda mais sofrimento e agonia, mas ela não conseguia mover nenhum músculo. Era doloroso ver as asas dela se desfazendo e as cores escorrendo como se houvessem virado uma paleta na vertical. Pouco a pouco ela foi fundindo-se e tomando a forma humana de um menino. Não qualquer espécime do gênero masculino, mas exatamente idêntico à menina de outrora, aquela que havia sido numa época qualquer e que há tempos estava encerrada nesse vale maldito. Ela não acreditava no que seus olhos jovens e cansados viam. Era como olhar-se no espelho. Os mesmos traços, a mesma expressão... Nem mesmo gêmeos univitelinos teriam tamanho grau de semelhança. O um desdobrava-se com perfeição. Instantaneamente sentiu seu coração aquecer. Ao contemplar-se na figura daquele menino-borboleta e ver refletida a imagem do que havia sido um dia, ela chorou convulsivamente. Dessa vez não era de tristeza, medo, dor, angústia ou saudade. Era amor. Um amor incontrolável a consumiu de imediato. Sabia que já não estava mais sozinha. Foi inundada por uma sensação quente, familiar, que a completava e a fazia sentir-se leve. Sua enfermidade já não a importunava e tampoco a morbidez de sua situação.
Sem pronunciar uma palavra sequer, ele estendeu sua mão à menina. Era o convite pelo qual ela havia ansiado a vida toda. Alguém finalmente estava lhe propondo felicidade. Ela fechou os olhos ainda úmidos e agarrou-lhe a mão aveludada com força. Assim que se tocaram, a menina sentiu seu corpo todo ser alavancado por tremores e como num passe de mágica viu suas feridas fechando-se uma a uma e a pele adquirindo viço e beleza. Cada parte dela ia se regenerando com rapidez incrível e a dor lacinante sumira totalmente. Um sorriso leve e torto brotou em seus lábios desacostumados. Ele a puxou devagarinho ao seu encontro e enlaçados num abraço eterno, dissolveram-se em um único ser num encaixe perfeito. Já não havia um menino e uma menina. Apenas uma linda borboleta.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Beijo na mão

Ele beijou minha mão. Beijou outras muitas mãos, mas o fato é que ele beijou a MINHA mão. Aquele ato repentino e ligeiro provocou em mim uma dor aguda, da qual não pude me desvencilhar por um bom tempo... Me senti tão indigna daqueles lábios! Era como se eu fosse sua senhoria e ele estivesse pedindo permissão para viver. Seu docinho permaneceu no meu colo. Sem exitar peguei o valor estipulado na minha bolsa e esperei que aquela criança voltasse para recolher. Eu não tive coragem de olhar-lhe nos olhos quando ele passou por mim. Me senti suja. Uma sujeira pertinente à alma e não aquela aparente em seu corpo franzino. As portas do metrô se abriram e eu caminhei lentamente, tentando não fraquejar perante aquela situação de submissão e inocência.

Simone Batista