"A menina de alma negra se arrastava no lamaçal do vale do esquecimento. Suas feridas expostas sangravam, o prurido a acometia de uma coceira insuportável e a dor a fazia lamuriar-se com frequência. A escuridão e o frio a castigavam e o silêncio, quebrado apenas por seus incansáveis murmúrios e gemidos, a enlouquecia ao ponto de imaginar vozes e sentir-se perseguida por demônios horrendos, criaturas em avançado grau de putrefação e monstros rastejantes. Seu corpo debilitado pela fome e pela sede dificultava sua locomoção e cada vez que ela fraquejava, afundava ainda mais no lodo fétido e viscoso. Há muito já havia perdido a noção do tempo e mesmo que quisesse não teria como precisá-lo, pois naquele lugar não havia distinção entre noite e dia, apenas o vazio, o limbo, o negrume. Suas lágrimas quentes não conseguiam aquecer seu rosto petrificado pelo vento cortante e a chuva fina e constante.
Surgiu então uma luz pequenina ao longe. Pensando em tratar-se de mais uma de suas alucinações, ela não deu nenhuma importância. Entretanto, a luz foi aumentando aos poucos e começava a iluminar timidamente o vale assombrado. Ela afundou-se na lama deixando apenas um par de olhos assustados para fora. Mais atemorizador do que estar sozinha naquele lugar, era a presença de Um ser desconhecido. Era uma figura colorida, resplandecente. Não dava para distinguir ao certo, mas a medida que se aproximava, mas difícil ficava olhar para sua luminosidade. Contornos de grandes asas foram surgindo e o bater delas causava calafrios na menina.
Era uma borboleta. Não qualquer uma. Era a mais linda e complexa que ela lembrava ter visto em vida. Enorme, majestosa. Suas muitas cores moviam-se e misturavam-se, proporcionando a cada instante combinações únicas de tirar o fôlego. Entretanto, quando seus olhos admirados se acostumavam novamente com a beleza, a borboleta começou a derreter. Os fluídos escorriam como se houvessem aceso uma vela sobre a criatura e os pingos incandescentes queimavam a menina, causando-lhe ainda mais sofrimento e agonia, mas ela não conseguia mover nenhum músculo. Era doloroso ver as asas dela se desfazendo e as cores escorrendo como se houvessem virado uma paleta na vertical. Pouco a pouco ela foi fundindo-se e tomando a forma humana de um menino. Não qualquer espécime do gênero masculino, mas exatamente idêntico à menina de outrora, aquela que havia sido numa época qualquer e que há tempos estava encerrada nesse vale maldito. Ela não acreditava no que seus olhos jovens e cansados viam. Era como olhar-se no espelho. Os mesmos traços, a mesma expressão... Nem mesmo gêmeos univitelinos teriam tamanho grau de semelhança. O um desdobrava-se com perfeição. Instantaneamente sentiu seu coração aquecer. Ao contemplar-se na figura daquele menino-borboleta e ver refletida a imagem do que havia sido um dia, ela chorou convulsivamente. Dessa vez não era de tristeza, medo, dor, angústia ou saudade. Era amor. Um amor incontrolável a consumiu de imediato. Sabia que já não estava mais sozinha. Foi inundada por uma sensação quente, familiar, que a completava e a fazia sentir-se leve. Sua enfermidade já não a importunava e tampoco a morbidez de sua situação.
Sem pronunciar uma palavra sequer, ele estendeu sua mão à menina. Era o convite pelo qual ela havia ansiado a vida toda. Alguém finalmente estava lhe propondo felicidade. Ela fechou os olhos ainda úmidos e agarrou-lhe a mão aveludada com força. Assim que se tocaram, a menina sentiu seu corpo todo ser alavancado por tremores e como num passe de mágica viu suas feridas fechando-se uma a uma e a pele adquirindo viço e beleza. Cada parte dela ia se regenerando com rapidez incrível e a dor lacinante sumira totalmente. Um sorriso leve e torto brotou em seus lábios desacostumados. Ele a puxou devagarinho ao seu encontro e enlaçados num abraço eterno, dissolveram-se em um único ser num encaixe perfeito. Já não havia um menino e uma menina. Apenas uma linda borboleta.
Surgiu então uma luz pequenina ao longe. Pensando em tratar-se de mais uma de suas alucinações, ela não deu nenhuma importância. Entretanto, a luz foi aumentando aos poucos e começava a iluminar timidamente o vale assombrado. Ela afundou-se na lama deixando apenas um par de olhos assustados para fora. Mais atemorizador do que estar sozinha naquele lugar, era a presença de Um ser desconhecido. Era uma figura colorida, resplandecente. Não dava para distinguir ao certo, mas a medida que se aproximava, mas difícil ficava olhar para sua luminosidade. Contornos de grandes asas foram surgindo e o bater delas causava calafrios na menina.
Era uma borboleta. Não qualquer uma. Era a mais linda e complexa que ela lembrava ter visto em vida. Enorme, majestosa. Suas muitas cores moviam-se e misturavam-se, proporcionando a cada instante combinações únicas de tirar o fôlego. Entretanto, quando seus olhos admirados se acostumavam novamente com a beleza, a borboleta começou a derreter. Os fluídos escorriam como se houvessem aceso uma vela sobre a criatura e os pingos incandescentes queimavam a menina, causando-lhe ainda mais sofrimento e agonia, mas ela não conseguia mover nenhum músculo. Era doloroso ver as asas dela se desfazendo e as cores escorrendo como se houvessem virado uma paleta na vertical. Pouco a pouco ela foi fundindo-se e tomando a forma humana de um menino. Não qualquer espécime do gênero masculino, mas exatamente idêntico à menina de outrora, aquela que havia sido numa época qualquer e que há tempos estava encerrada nesse vale maldito. Ela não acreditava no que seus olhos jovens e cansados viam. Era como olhar-se no espelho. Os mesmos traços, a mesma expressão... Nem mesmo gêmeos univitelinos teriam tamanho grau de semelhança. O um desdobrava-se com perfeição. Instantaneamente sentiu seu coração aquecer. Ao contemplar-se na figura daquele menino-borboleta e ver refletida a imagem do que havia sido um dia, ela chorou convulsivamente. Dessa vez não era de tristeza, medo, dor, angústia ou saudade. Era amor. Um amor incontrolável a consumiu de imediato. Sabia que já não estava mais sozinha. Foi inundada por uma sensação quente, familiar, que a completava e a fazia sentir-se leve. Sua enfermidade já não a importunava e tampoco a morbidez de sua situação.
Sem pronunciar uma palavra sequer, ele estendeu sua mão à menina. Era o convite pelo qual ela havia ansiado a vida toda. Alguém finalmente estava lhe propondo felicidade. Ela fechou os olhos ainda úmidos e agarrou-lhe a mão aveludada com força. Assim que se tocaram, a menina sentiu seu corpo todo ser alavancado por tremores e como num passe de mágica viu suas feridas fechando-se uma a uma e a pele adquirindo viço e beleza. Cada parte dela ia se regenerando com rapidez incrível e a dor lacinante sumira totalmente. Um sorriso leve e torto brotou em seus lábios desacostumados. Ele a puxou devagarinho ao seu encontro e enlaçados num abraço eterno, dissolveram-se em um único ser num encaixe perfeito. Já não havia um menino e uma menina. Apenas uma linda borboleta.


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