domingo, 14 de agosto de 2011

Pedro

O pai o abraçava carinhosamente. Fazia gracinhas, conversava com ele, porém o menino não abria a boca. Com as mãozinhas escondidas na blusa de linho surrada azul-marinho com listra vermelha, ele me olhava tristonho. Não sei o motivo de sua chateação ou se era apenas frio, mas senti meus olhos se encheram de lágrimas diante daquelça cena. Todos ao meu redor, inclusive eu, estávamos bem agasalhados para o frio de 4°C que fazia naquela manhã. Percebia-se pela gola de sua blusa que ele vestia por baixo apenas uma camiseta. Sua calça de moletom cinza já havia passado muitos invernos com ele, pois mostrava "quatro dedos" da perna franzina do garoto antes de avistarmos as meias vermelhas e o tênis marrom. Quando o onibus esvaziou e ele foi sentar num banco sozinho, o pai pediu por duas vezes que ele se segurasse no encosto do banco da frente, porém em nenhum momento ele "desembrulhou" as mãozinhas.

Simone Batista

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Tarja Preta

Quando a mãe entrou no ônibus e o senhor sentando à minha frente estendeu o braço para o menino e o colocou no colo, tive um ataque de pânico. Mãe, tira ele daí. Uma angústia repentina tomou conta de mim e eu já não prestava atenção na música que tocava em meu fone de meu ouvido. Inquieta, olhava para todos os lados. Meus olhos se encheram de água e eu lutei para não deixá-las transbordar. As pessoas ao meu lado já haviam percebido meu desespero e me encaravam com estranhamento. Cada vez que ele ajeitava a criança, erguendo-a no colo, eu sufocava ainda mais. E quando ele ajeitava o uniforme, passando a mão na altura do peito do garoto eu virava o rosto bruscamente para não ver a cena. Que ele seja bom, que ele seja bom... A mulher foi até o cobrador pagar a passagem e deixou-os sozinhos. Não acreditei naquela atitude. Como pode? Eu rezava em silêncio para alguém levantar e ceder o lugar aos dois. Isso não aconteceu, mas o senhor desceu logo, não sem antes tocar o braço do menino mais uma vez antes de sair do coletivo. Comecei a questionar minha sanidade. Eu não estava vendo nada demais, estava? Tarja preta.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Peace & Love



Deitada no sofá e embrulhada com um lençol branco, aninhei-me no seu colo e adormeci nos seus braços.


O tempo parou.


Eu já não estava triste e muito menos angustiada com a separação iminente. Sem pressa, apaguei por alguns minutos. Nunca uma sensação de conforto e paz esteve tão presente na minha vida e por decorrência das atribulações dos últimos dias, estes sentimentos estavam bem distantes da minha realidade.


Como foi bom não pensar em nada! Sentir-me aquecida e protegida, apenas por sentir um braço repousado sobre o meu quadril.


Cheiro de casa, gesto de carinho. Sopro gélido, sol fraco de tarde de outono.


Ao acordar, soube que vinte minutos já haviam se passado. Pouco para um cochilo, muito para uma alma cansada.




Simone Batista

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Para que lo sepas...


Cada vez que pienso en ti
una gran sonrisa ya se me figura.
Tu rostro - tan guapo me parece a mí
que mirarlo es la tortura.
Me reemplazaste el platónico por la realidad
y fuíste sin saberlo mi salvación.
En una sola persona, amor y amistad;
Sin mentiras o ilusión.
Una vez me lo preguntaste cuanto te quería
y te enfadastes cuando te contesté
que te amaba más de lo que debería.
No creas que desdeño nuestra relación.
Simplemente tengo miedo de volverme loca...
pues si me dejas, mi vida otra vez pierde la razón.
Simone Batista

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Herdeiro da dor e da beleza


Olhos grandes, verdes.
Cabelos escorridos e tom de trigo.
Um rosto angelical,
marcado por uma profunda fenda palatal.
Lágrimas me vieram aos olhos imediatamente...
mas não por piedade!
Apenas porque prevejo com tristeza
que te tratarão com maldade
por não entenderem tua beleza.
Tão pequeno ainda
e já marcado para enfrentar zombarias...
mas eu vejo sua alma
e sei que serás feliz um dia.
Mãe, não chore por teu filho,
abençoado ele é,
ainda que encontre mil empecilhos
o gracioso herdeiro de Javé.

Simone Batista

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Entre galhos




Saíra amarela

Mira teu tangará,

Repara como ele se move

E comove com seu bailar.


Olha lá, se não é um ninho perfeito

Leito de duas almas

Calmas no jeito

E feitas para perdurar.


Cante alto e forte

A sorte enfim veio em tua direção,

São poucos que a recebem pajarita,

Sinta, isso não é outra ilusão.


Em teus olhos muitas cores,

Odores para te lembrar

Mar, cidade, campo

Tanto que temos para contar.


Mesmo com sua aparência frágil

É ágil e tem fome de viver.

Ver esse pássaro de rara beleza

Com certeza é um alento para viver.


Mas é como muitos dizem...

Sem compania, uma única andorinha não faz verão.

Então o destino reuniu já,

Tangará e saíra numa perfeita união.
Simone Batista

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

1° pessoa do plural


Te olho e não acredito.
Te sinto e ainda não creio.
Te tenho, entretanto receio.
Te gosto e a isso me permito.

Me ama mas ainda não disse.
Me tens porque merece.
Me necessita e às vezes esquece.
Me ganha com tua meninice.

Nos conhecemos sem querer.
Nos apaixonamos constantemente.
Nos encontramos nada frequentemente.
Nos ganhamos para em nós mesmos nos perder.

Simone Batista