sábado, 26 de abril de 2008

Desencontros



Ele:

“E ela se foi. Chorava copiosamente, mas não hesitou um minuto sequer. Seus passos eram firmes e aos poucos ela foi sumindo na linha do horizonte. Olhei sua figura, talvez pela última vez e não consegui sentir nada. Parecia que não era real. Subi ao meu quarto, deitei em minha cama ainda amarrotada da tórrida noite de amor e esperei. Esperei que ela retornasse. Entretanto, ela não o fez. E eu não me levantei mais...”.

Ela:

“Achei que ele gritaria meu nome e exigiria que eu voltasse para seus braços e para a sua vida, entretanto, quanto mais eu caminhava, mas a certeza de que ele não faria isso me afligia a alma. Ao longe, parei e olhei em direção a casa. Ele não estava mais na varanda, sinal de que não se importava com o meu destino. Caminhei sem rumo, pois ele era minha direção. Nunca mais parei...”.

Simone Batista

quinta-feira, 24 de abril de 2008

A preterida




Desde pequena os melhores brinquedos eram dados à sua irmã. Na adolescência, os rapazes mais bonitos sempre se interessavam pela sua melhor amiga. Quando começou a trabalhar, os cargos que ofereciam melhores condições nunca lhe eram destinados, apesar de seu currículo escolar invejável. Agora, no auge de seus 30 anos, é a única da turma e da família ainda solteira. Nunca teve ao menos um namorado para apresentar, nem uma profissão da qual tivesse orgulho de comentar. Sua vida era uma sucessão de dias sem graça. Trabalho, casa, igreja...
No final de semana seguinte iria haver uma grande festa em sua cidade. Todos estavam alvoroçados, menos ela. Afinal, ninguém nunca a escolhia para dançar mesmo. Entretanto, chegado o dia, algo a impulsionou. Vestiu sua melhor roupa, penteou-se e saiu apressada. Sentia um aperto no peito e quanto mais caminhava mais a sensação ruim a perseguia. Finalmente, quando chegou, pôde avistar a multidão que se formava em volta da mesa farta. A música agitada estava no último volume e todos conversavam, sorriam e alguns pares dançavam.
De rente, um carro desgovernando adentrou a festa e atingiu a moça, pressionando-a contra o muro. Ela sorriu, suspirou e abandonou a vida certa de que pela primeira vez, ela fora escolhida dentre muitos.


Simone Batista

Devaneios

Entrei apressado no metrô. Era a segunda vez na mesma semana que chegaria atrasado na empresa. Olhei em volta, todos os bancos estavam ocupados. Envolvi a barra fria de aço entre as mãos e encostei-me na porta que se fechara atrás de mim. Comecei a prestar atenção nas pessoas ao meu redor. Alguns liam o jornal da manhã e outros tiravam a soneca dos justos, porém uma pessoa em específico me chamou a atenção. Sentada no fundo do vagão, mas exatamente no último assento, estava uma senhora de meia-idade. Seus cabelos grisalhos estavam envoltos em um lenço azul com pequenos furos e a roupa já bem gasta e encardida mostrava que há dias não era trocada. Por coincidência, ela olhou-me e viu que eu a encarava. Abaixou os olhos timidamente e apertou a sacola de plástico que carregava de encontro ao peito. Senti uma profunda lástima por aquele ser encolhido. Resolvi me aproximar. Vagarosamente, parei à sua frente e sorrindo a cumprimentei. Desconfiada, ela deu um meio sorriso e voltou sua atenção para o outro lado. Percebi que minha presença a incomodava, mas ainda assim, não conseguia desprender meu olhar daquela figura patética e ao mesmo tempo doce. “Deve ter a idade de minha mãe!” pensei. Sim, aquela senhora poderia ser minha mãe... Poderia, mas não o era. Será que ela tinha filhos? Comecei a divagar sobre sua possível rotina. Em minha mente fértil imaginei os rostos de seus filhos; a sua casa branca cheia de bordados, tricôs e crochês; seu marido calvo e barrigudo sentado no sofá em frente à televisão; sua comidinha invariável...Meus devaneios foram interrompidos por sua mão em meu ombro. Olhei no fundo de seus olhos e esperei que ela me dissesse algo, o que prontamente o fez: ­- Obrigada, meu filho, por sua atenção! Ouvi ao longe o chamado para desembarque dos passageiros. Ela saiu e eu não pude me conter. Lágrimas quentes me vieram aos olhos. A solidão humana é a pior das dores...
Simone Batista