terça-feira, 24 de agosto de 2010

Tarja Preta

Quando a mãe entrou no ônibus e o senhor sentando à minha frente estendeu o braço para o menino e o colocou no colo, tive um ataque de pânico. Mãe, tira ele daí. Uma angústia repentina tomou conta de mim e eu já não prestava atenção na música que tocava em meu fone de meu ouvido. Inquieta, olhava para todos os lados. Meus olhos se encheram de água e eu lutei para não deixá-las transbordar. As pessoas ao meu lado já haviam percebido meu desespero e me encaravam com estranhamento. Cada vez que ele ajeitava a criança, erguendo-a no colo, eu sufocava ainda mais. E quando ele ajeitava o uniforme, passando a mão na altura do peito do garoto eu virava o rosto bruscamente para não ver a cena. Que ele seja bom, que ele seja bom... A mulher foi até o cobrador pagar a passagem e deixou-os sozinhos. Não acreditei naquela atitude. Como pode? Eu rezava em silêncio para alguém levantar e ceder o lugar aos dois. Isso não aconteceu, mas o senhor desceu logo, não sem antes tocar o braço do menino mais uma vez antes de sair do coletivo. Comecei a questionar minha sanidade. Eu não estava vendo nada demais, estava? Tarja preta.