quarta-feira, 8 de outubro de 2008

A promessa


Era uma manhã chuvosa. A neblina densa encobria todo o céu da pequena vila. Não havia viva alma pelas ruas. As pessoas dormiam tranqüilamente, talvez algumas sonhassem com um dia de sol numa praia paradisíaca, outras, no entanto, olhavam a chuva fina que caía pelas suas janelas com o olhar perdido numa melancolia profunda. Mas nesse momento, alguém sorria feliz.
Na última casa da rua, uma jovem de tranças negras rodopiava de alegria. Seu pai acabara de falecer e o corpo ainda repousava inerte sobre a cama. Seu riso ecoava pelas paredes frias da sala. Não haveria mais gritos, surras ou abusos. Passados longos vinte e sete anos, finalmente chegara o tão esperado dia e a única coisa que conseguia fazer era rir, rir muito, até não poder mais. Neste ínterim, ouve-se um choro. Ela voltou-se na direção do barulho e viu seu filho de apenas três anos parado no topo da escada com o olhar estarrecido como de quem não acredita no que acaba de ver. Sem o mínimo de compaixão ela saiu pela porta para não mais voltar. A criança entendeu que não veria mais a sua mãe. Desceu as escadas e correu para a rua a fim de encontrá-la. Por ainda não ter uma percepção aguçada, não notou que um carro em alta velocidade vinha em sua direção. Em poucos instantes seu corpinho franzino jazia morto no chão. A mãe viu toda a cena ao longe, mas por haver prometido a si mesma que nunca mais se prenderia a algo ou a alguém, continuou a caminhar sem se importar com seu único filho ali atirado ao chão como um pobre indigente...

Simone Batista

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